Entrevista com o grafiteiro paulista MAO

byJFParanaguá

MAO: “A arte de rua pra mim é tudo. Quando estou na rua é um momento de calmaria, é um momento especial de liberdade”

Magno Santiago Soares, mais conhecido como MAO, 31 anos, nasceu na cidade de Coaraci, sul do estado da Bahia. Com sete anos de idade teve que acompanhar os pais que se mudaram para São Paulo e foram morar na Zona Leste da capital. Antes de completar oito anos, cursando a 2ª série escolar, fez o seu primeiro picho, dando início a sua trajetória na cena paulista como pichador, depois como grafiteiro. Há mais de um ano residindo em Salvador, o grafiteiro paulista MAO, nessa entrevista concedida ao blog A Arte na Rua contou mais detalhes de suas intervenções e do seu personagem o “Peixe”, presente em diferentes pontos da cidade. Confira:

A Arte na Rua – Lembra-se o local do seu primeiro picho?

MAO – Lembro. Pichei o banheiro da escola (risos). Eu assinei MAO, meu apelido, que foi desenvolvido dentro da sala de aula com os meus amigos. Inclusive alguns deles foram vítimas fatais de violência.

AAR – Você usou spray ou outro material?

MAO – Pasta de sapato Nugget (risos). Depois passei a usar spray fora da escola. Mas não tive condições de ir muito além devido a rígida educação de meu pai. Aos 13 anos de idade meus pais se separaram e fui morar com minha mãe. Dessa idade em diante comecei a pichar com frequência, todos os dias e, também por gostar da estética das letras.

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AAR – Você criou um estilo ou copiou outros pichadores?

MAO – Eu acabei tendo influência de alunos mais velhos da escola que eram pichadores. Mas claro que criei uma estética diferente dos demais. Iniciei pichando com a turma dos Dopados, D2, depois Riet, e, de 97 pra 98, entrei para os Fatais, onde permaneci por muito tempo.

AAR – Durante esse período você teve envolvimento com a polícia?

MAO – Sim. Várias vezes, mas não me recordo no momento. Depois de um tempo como um pichador local, a vontade foi de ir pro Centro da cidade riscar em vários prédios, manter contato com outros pichadores de zonas diferentes e agitar bastante.

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AAR – Qual o picho que você fez e achou massa? Aquele que você disse: P-o-r-r-a! Esse foi f-o-d-a!

MAO – Fiz em vários prédios. Mas ficou na história a pintura que fiz com amigos no nono andar de um antigo hospital. Cada um pichador escalou o prédio e ficou pendurado em uma janela pelo lado de fora fazendo seu risco. Eu risquei Fatais e MAO. Outro pichou Satânico. Nesse dia foi pura adrenalina.

AAR – E o grafite, quando surgiu?

MAO – Em 1993. Na fase de pichador, eu observava os traços de alguns grafiteiros que eram bem legais e desenhava em casa. Inicialmente comecei a fazer letras em 98, pintando MAO. Parei pelo período de um ano, devido questões pessoais.

AAR – Você herdou de alguém da família o gosto pelo desenho?

MAO – Na família tenho vários primos que desenham, mas não sei explicar pra você a origem. Só sei dizer que a cada dia quero aprender mais.

AAR – Por qual motivo você escolheu o grafite? Queria sair da pichação? Escolher um novo caminho e deixar de viver momentos de adrenalina?

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MAO – No grafite vivi muito mais o processo de adrenalina do que na pichação. Já enfrentei diversas situações adversas. Eu gosto do bombardeio no grafite.

AAR – Esses bombardeios são feitos rápidos com a sua tag?

MAO – Eu não faço rápido. Gosto de pintar bem devagar.

AAR – Você faz parte de algum Crew?

MAO– Minha Vida. É uma escrita por extenso, não é abreviada e de fácil compreensão. No começo, era uma ideologia de vida que eu tinha por conta da minha família, dos problemas da vida, de estar sempre na rua. De me autodesafiar, de não parar de pintar. Então, percebi que a ideologia era a minha vida. Então escolhi como crew.

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AAR – Além de você, quem são os outros integrantes da Minha Vida?

MAO – É formada por grafiteitos e alguns pichadores. Aspas, Perebas, Satânicos, Estilo (pichadores). No grafite tem SMS, Big, Lídia, Rabisco (RC)…

AAR – De Salvador, tem alguém?

MAO – Ainda não coloquei ninguém. Eu estou até participando com alguns amigos grafiteiros daqui com muita satisfação, que são da SMC (Sub Mundo Crew). O Notem, por exemplo, além de outros que me acolheram como amigo. Estou na batalha com eles.

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AAR – Como você define o seu estilo?

MAO – Eu não saberia definir o meu estilo, porque até hoje eu tento compreender. Às vezes eu chego e faço, mas tem outras que nem acredito que fiz. Portanto, não tenho uma definição pra dizer a você esse é o meu estilo.

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AAR – Qual o tipo de arte que se encaixa mais com você? Estêncil, bomb, colagem, tag ou grafite?

MAO – Eu faço tudo. Acho que o grafiteiro tem de fazer tudo. Ele não pode se prender a uma parada só. Acredito que a cada momento tem uma situação. Às vezes, pode-se estar mais solto na rua, interagir com as pessoas, com a galera. Então, quem faz grafite, tem que fazer todas as modalidades.

AAR – Como é feita a escolha do local para você pintar?

MAO – Quando estou andando na rua eu observo os lugares degradados e abandonados. Muitos grafites que eu faço não são autorizados. Às vezes alguns a gente consegue autorização, outros não. Eu procuro pintar e deixar o local bem colorido.

AAR – O que lhe fez escolher Salvador pra fazer seus grafites?

MAO – A vontade de vir pra minha terra. Também vim como uma experiência pra mudar de vida. Fazer diferente em outro lugar. Voltar às origens. Eu quando pisei aqui senti uma energia muito forte, uma energia muito boa na recepção, dos amigos. Essa energia ajudou a superar os sérios problemas de depressão, devido a perdas de familiares mais chegados, como foi o caso de minha mãe. Além dos grafites, é um lugar em que estou trabalhando. E quando eu estou trabalhando, estou feliz!

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AAR – O que a arte de rua lhe proporciona?

MAO – A arte de rua pra mim é tudo. É dia de fúria. Quando estou na rua é um momento de calmaria, é um momento especial de liberdade. Quando estou pintando na rua é o meu momento.

AAR – Qual a diferença que você observou entre Salvador e São Paulo, com respeito à liberdade de expressão?

MAO – Em que sentido, Paranaguá?

AAR – Durante uma ação na rua. Qual a diferença?

MAO – Aqui em Salvador tem uma aceitação muito grande. Mas, não só aqui como em vários lugares. A sociedade passou aceitar mais o grafite. Já tive muitos problemas no passado, até pintando muros degradados. Os caras paravam, diziam ofensas e depois falavam: “Vou te processar”.

AAR – Você pinta por inspiração ou já traz uma ideia no papel?

MAO – Vou pra rua sem ideia. E só escolher a tinta e pintar. Olho o que tenho e risco o que consigo fazer. O que ajuda muito é a energia do lugar onde você está pintando.

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AAR – O que significa o seu personagem?

MAO – O peixe? A formação dele surgiu a partir de algumas letras que pintei. Na época, eu até briguei com os meus amigos, porque reclamavam das pinturas dos peixes nas paredes. Então, decidi pintar sozinho, até eles entenderem o motivo. Eu estava numa mudança pessoal e o desenho do peixe foi fundamental. O peixe é vida! Vida e alma! Pra nós o peixe é vida e pra os japoneses é alma…

AAR – Em vários bairros e em diferentes espaços da cidade por onde circulo eu encontro a sua marca pessoal: O que você pretende com isso?

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MAO – Eu acho interessante fazer em vários lugares. Mas, o legal é ter um em cada ponto diferente da cidade. Em locais de boa visão…

AAR – Em quais cidades você já esteve?

MAO – Teve um período da minha vida que estive em Lisboa, Portugal. Lá eu trabalhei com aerografia automobilística pintando carros e motos de corrida, uma técnica que aprendi em São Paulo. Mas, durante a minha estada em Lisboa, não fiz nenhuma intervenção. Fiquei focado no meu trabalho.

AAR – Qual a reação da população quando lhe vê pintando?

MAO – Graças a Deus eu tenho uma boa aceitação. Às vezes chamo meus amigos pra pintar numa área nobre ou numa favela, e nas duas somos bem aceitos.

AAR – Você pode dar uma dica pra quem está iniciando?

MAO – Eu acredito que o importante é não perder o foco da rua. Não esquecer que a rua é a rua. Tem os perigos, mas se a pessoa quiser pode chegar, pintar, conversar, pedir permissão pra pintar um muro. Evite fazer rabisco em cima de pichação ou grafite. Respeite pra ser respeitado também.

AAR – Qual a mensagem você quer deixar?

MAO – Muito obrigado Salvador por abrir as portas pra mim e me acolher. Estou muito feliz aqui. E vamos pintar!

(Fotos: Facebook MAO e JFParanaguá. Direitos reservados. Denuncie abusos).

2 comments for “Entrevista com o grafiteiro paulista MAO

  1. MARCELLO SMS
    20 de fevereiro de 2016 at 23:19

    Lembro até hj quando fiz meu primeiro role com esse mano que tenho como um irmão apesar de hj estamos meio longe mais sempre lembro desse doidera sangue bom aee meu parça soh progresso pra ti aee e fica na paz meu parçaa eh noizzz doideraa!!!!!!!

    • 22 de fevereiro de 2016 at 07:09

      Olá, Marcello! Valeu pelo acesso! MAO, realmente é um grande figura. Foi muito interessante entrevistá-lo. Abraço.

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